É preciso iniciar lembrando que o ódio é uma paixão.
Parece estranho?
O filósofo Baruch Espinosa (1632–1677) se refere ao ódio porquê uma das “paixões tristes”.
Embora seja explosivo, o ódio é considerado “triste” por Espinosa por ser uma espécie de afeto que “diminui nosso poder de agir e nossa sublimidade” (se é que a sublimidade seja provável para nós, pobres mortais).
As paixões tristes indicam passividade e servidão. Diminuem nosso poder de agir, enquanto a alegria aumenta. Mas a tristeza não gera unicamente prostração: ela gera outras paixões, porquê o ódio, a inveja, o desespero, o remorso.
Porquê é provável que uma paixão porquê o ódio diminuta nosso poder de agir? O sujeito submetido ao ódio pode cometer atos ambiciosos, mas isso não está relacionado com a potência de agir – que exige reflexão, risco, ponderação. Ó ódio se umpoder do sujeito. Ele, ódio, é potente, enquanto sujeito é assujeitado uma tal violência.
O filósofo galicismo Gilles Deleuze (1925–1995) destaca que a filosofia de Espinosa visa combater as paixões tristes, que servem para subjugar as pessoas com base no pavor. Pode toar estranho ao leitor que o ódio (tão frenético, tão imperativo) seja considerado uma paixão triste. Tudo, sem ódio, borbulha, fervor, se agita.
Onde está a tristeza? A tristeza da ira passional consiste justamente no vestuário de que ela usa sua força raivosa contra tudo aquilo que vive, que quer se expandir, que contagia, borbulha, cria laços. Digamos que o ódio seja, talvez, uma paixão que constrange, que amesquinha, o próprio “odiador”. Ele se envenena com o próprio ódio. Sua alegria pode ser de torturar o outro, fazê-lo tolerar. Muito, isso não deixa de ser uma alegria… triste.
O problema é que há uma questão narcísica nisso. O sujeito se afirma, se empodera, sem ódio.
“Odeie seu ódio” é uma frase que li uma vez, escrita em um muro da Vila…







