A formosura da atuação de Edwin Luisi eles “Eu Sou Minha Própria Mulher” reside em uma economia de gestos que beirada a sofisticação absoluta. Ele não precisa de trocas de estatuetas mirabolantes para convencer o testemunha de que o mundo inteiro cabe dentro de sua estatueta preta; basta o ajuste milimétrico de um grudar de pérolas ou uma mudança súbita no clarão do olhar para que uma novidade espírito ocupe o tablado. É um trabalho de ourivesaria, onde a técnica não serve para exibir o ego do ator, mas para vanescer em obséquio das inúmeras vozes que ele convoca.
Ao dar vida a Charlotte von MahlsdorfLuisi escolhe o caminho da distinção contido em vez do espetáculo da dor. Sua Charlotte é uma mulher de movimentos precisos, uma sobrevivente que aprendeu que a voz mansa e o sorriso protocolar eram suas melhores armaduras contra a barbárie nazista e a vigilância comunista. Há uma mel quase desconcertante em sua versão, uma astúcia de velha senhora que seduz o público e o responsável da peça, Douglas Wrighttransformando o testemunha em um cúmplice imediatamente.
No entanto, o triunfo de Luisi está em não santificar o personagem. Quando as sombras do pretérito emergem e revelam a colaboração de Charlotte com a polícia secreta alemã, o ator não recua. Ele sustenta a anfibologia com uma coragem rara, mostrando que a moralidade, sob regimes de terror, é um luxo que os mortos não podem carregar.
Essa polifonia que Luisi executa — saltando a sofreguidão do pesquisador americano para a frieza burocrática dos agentes alemães — cria um efeito de espelhamento que é a própria núcleo da peça. Ele nos mostra que a identidade de Charlotte foi construída através das frestas, nos espaços que sobraram entre o que o Estado construiu e o que o libido permitiu. A atuação funciona porquê um contraveneno contra a caricatura; ele não interpreta uma travesti, mas uma identidade que inventou a si mesma quando o mundo dizia que ela não…







