A cultura da segunda metade do século XX é marcada por figuras de largo escopo, que buscaram envolver as complexidades políticas e estéticas do período, marcadas por complicação e contradições. É inegável que, nesse cenário, Pier Paolo Pasolini se destaca: foi poeta, narrador, diretor, roteirista, pintor e dramaturgo, além de tradutor, ensaísta e crítico, com atuação polêmica permanente na esfera pública italiana.
Acaba de transpor no Brasil um de seus livros mais atípicos, A Divina Mimesis, iniciado em 1963, mas publicado exclusivamente em 1975, meses depois de seu assassínio. Trata-se de uma coleção de fragmentos escritos em prosa, mas que desenvolve e encadeiam uma série de imagens poéticas, sempre mediadas por uma reflexão sátira e ensaística. Essa mistura reflete o interesse de Pasolini por dois precursores célebres de sua obra: Dante e sua Divina Comédia e Erich Auerbach e sua Mimesis.
A verdade de 1963, escreve Pasolini no primeiro Esquina, foi “um momento muito escuro” da sua vida”. Mas eis que lhe ocorre “alguma coisa de terrivelmente luminoso”: um encontro “em frente ao cinema Splendid”, uma familiar, que poderia ser “o próprio Gramsci”, ou “poderia ser Rimbaud”, ou “poderia ser Carlitos”.
A partir daí, ocorre uma visitante a um novo inferno – feito de “grandes avenidas burocráticas”, com cancelas e placas –, povoado por “conformistas”, “parasitas políticas”, “pequenos intelectuais”, que correm detrás de “uma bandeira” que é, na verdade, “um trapo”, escreve Pasolini.
Em 1963, Pasolini já havia feito seus dois filmes uma vez que diretor, Accattone (1961) e Mamma Roma (1962); romances publicados uma vez que Meninos da Vida (1955) e Uma Vida Violenta (1959); e levado alguns processos judiciais, acusados de obscenidade, prevaricação de menores e temas correlatos.
Uma Divina Mimese. Pier Paolo Pasolini. Tradução: Cláudia Tavares Alves. Edições Jabuticaba (108 págs., 60 reais)
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