“Que teu pai cá te espera”. O verso que conclui “Sopros da Negrume”, filete final do álbum “Cobertura Rosa”, de Mário Sève e Guilherme Wisniktrata das intersecções verticais-horizontais do paixão entre pai e fruto. A triste melodia de ninar de Sève, letrada e cantada por Wisnik fruto, recebe, inferior de si, no grave, o piano e, muito supra, ao longe, no agudo, a voz do pai, o músico José Miguel Wisnik.
O paixão paterno não é tema recorrente na música popular brasílio, mas há, por exemplo, um incrível “Ninguém Chora por Você”, de Luiz Tatite também “Boas-Vindas”, de Caetano Veloso.
“Sopros da Negrume” consegue, por instantes, um prodígio, que é entrar no mundo da muchacho pequena que dorme, para quem o pai ao mesmo tempo está e não está ali; assim porquê, ao longo dos tempos, filhos e pais sempre serão exclusivos e não serão uns com os outros. Daí vem a ternura, mas também a tristeza, que só amplexo real pode ou poderia aplacar.
“Cobertura Rosa”, com lançamento previsto para 8 de maio, traz oito canções em parceria do compositor, arranjador, flautista e saxofonista carioca Mário Sève com Guilherme Wisnik, arquiteto e ensaísta paulista, professor das técnicas mais musicais dentre as escolas da Universidade de São Paulo, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.
Apesar de Sève ser carioca, seu trabalho com Guilherme Wisnik insere-se na particularíssima tradição da melodia popular urbana paulista. Menos seguros de suas origens —em verificação com Rio, Recife ou Salvador, por exemplo—, cosmopolita e oportunidade, a música popular paulista pode ter belezas hesitantes, deslocadas, tortas; é criativo na ironia, racional na verso e concreto em sua arquitetura.
A mão da parceria parece envolver ao longo do disco. Algumas canções às vezes carecem de uma fraseologia mais ampla, que possa subverter a tendência silábica da prosódia, e a homogeneidade dos arranjos aprovados por Sève também pode roçar…







